domingo, 22 de janeiro de 2017

Opinião

Um Homem Chamado Öve


Öve é um velhote resmungão que não entende o mundo. Öve não quer saber do mundo. Öve quer deixar o mundo.
É mesmo isso: o livro começa no dia em que Öve decide cometer suicídio. A sua única amarra a este mundo, a sua mulher Sonja, morreu há 6 meses. O sol da sua vida morreu devido a um cancro e levou toda a paciência e compreensão com ela. Mas, e como tem que haver um "mas", a chegada de novos vizinhos vai revolucionar a vida de Öve.

Este é o ponto de partida de um livro ternurento e divertido ao mesmo tempo, com os desmandos e o TOC pronunciado de Öve. É uma critica á sociedade muito interessante e original. São abordados temas como a velhice, solidão, homossexualidade, racismo, homofobia, o poder das instituições, a burocracia e  principalmente as relações humanas, porque é isso essencialmente que este livro aborda de uma maneira inteligente, divertida e ao mesmo tempo tocante.
Temos vontade de, ás vezes, abanar Öve pela sua intolerância e inflexibilidade, noutras rimos com as atitudes dele e noutras aprovamos as loucuras que ele faz em nome do bom viver na vizinhança.
Tudo isto é relatado através dos olhos críticos e resmungões no nosso protagonista que me fez lembrar o protagonista do filme de animação Up - sempre a resmungar, a parecer de mal com o mundo, mas no fundo no fundo, um coração de manteiga que apenas quer ser útil e não um estorvo.

A narrativa faz-se entre o momento presente e alguns saltos ao passado, para percebermos como é era a vida dele, a infância, como conheceu a mulher,  e no fundo o porquê de ele querer tirar a própria vida. Nessas analepses e prolepses estão todas as respostas que precisamos para compreendê-lo.
Quantos mal-entendidos haverão por esse mundo fora, com pessoas aparentemente intratáveis, porque não há tempo nem curiosidade para perceber o que é que essas pessoas carregam consigo? Essa foi a maior mensagem que retirei deste livro. Também que a partir de determinada idade, toda a gente pensa que sabe o que é melhor para nós e ás vezes estão redondamente enganados!
A escrita é fluída e simples e passa todas as mensagens e emoções com clareza.

Este foi o meu primeiro audiobook e aconselho vivamente. Ouvi em inglês e o narrador foi excelente ao fazer sons de enfado, exclamações de meninas de 3 anos - muito bem narrado, nada parado nem confuso. Penso até que tornou a experiência de leitura mais completa. Irei certamente estar atenta a outros audiobooks desta qualidade.

Kisses da vossa Geek

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017


Internet - amiga e aliada ou um mal necessário?


Desde o início do ano que me tenho vindo a aperceber, por relações próximas e outras menos próximas, de uma preocupação crescente com o tempo que se passa na Internet. Após ler o texto da Cláudia Simões e especialmente após uma conversa com a mãe de uma colega de sala do meu filho, fiquei com a impressão que andamos todos com o mesmo assunto na cabeça.

Ora, dizia-me essa mãe que tem uma amiga que está a pagar cerca de 1500 euros semanais, para que o filho seja desintoxicado da net. Todo o conceito de desintoxicação de Internet é-me completamente estranho, mas sendo uma adição, suponho que tenha que haver quem trate. Passando isso à frente, ficamos com algumas questões - usamos demasiado a Internet? Quando é que é demasiado? Há limites e barreiras?

A Internet veio revolucionar hábitos de um modo geral, desde a compra de mais e melhores telemóveis até aos tablets e computadores, de modo a podermos usufruir dela da maneira mais cómoda. Não podemos negar isso nem arrepiar caminho no sentido inverso - seria inútil e não traria nada de melhor em troca. Os hábitos já estão por demais enraizados e quer queiramos quer não -  a Internet é útil, faz parte do nosso dia-a-dia, é uma ferramenta já muito integrada em todas as partes da nossa vida, quer familiares - com a possibilidade de manter contacto com quem está mais longe - como laborais, como de entretenimento.
O problema bate quando a utilização interfere com o bom funcionamento e gerência da vida pessoal.

Quando ir e ficar na Internet, quer nas redes sociais, quer nos jogos se torna o centro do dia e não um de elemento de lazer. O roubar horas de sono para jogar. O tirar tempo à família e amigos que estão perto, para poder só pôr mais aquele like ou ver o feed. É o não saber viver sem ter aquele "apêndice" sempre ali e quando não há, por algum motivo, haver reações extremas que podem começar em crises de ansiedade e inclusivamente poder ir até à violência física. Isto tudo parece muito rebuscado, mas não é. Trata-se de uma adição e como tal, o corpo e a mente habituam-se à "dose", com efeitos iguais aos que a Christiane F. nos relatou naquele livro choque, Os Filhos da Droga. Tudo quanto domine o ser humano a esse ponto é mau.

Mas isto é um caso extremo.

Vamos pôr agora a questão do lado de utilizadores sem adições, mas que mesmo assim acham que passam demasiado tempo, que a Internet distrai muito e que acabam por não ser tão produtivos por causa dela. E mais específicamente, a resolução de haver um dia estipulado na semana, em que se está offline.


Falando por mim e pela minha experiência, até há bem pouco tempo passava vários dias por semana sem vir á net. Não sentia falta, mas também não acho que fosse particularmente mais produtiva por causa disso. Penso que quando há vontade e uma utilização conscientes, não é necessário haver dias marcados para não se aceder. Nunca deixei de ir passear, ter visitas em casa, ler, dar atenção ao meu filho e restante familia por causa de estar conectada, até porque prefiro o contacto pessoal e a partilha face to face. Gosto de conversar a olhar a pessoa nos olhos.
Mas, por causa da internet ,encontrei mais pessoas com os mesmos interesses que eu, com quem fiz amizade e que adorei e adoro conhecer - se não houvesse Internet, teria mais dificuldade em conhecer essas pessoas, comungar e explorar esses interesses. Se não houvesse Internet não haveria este blogue....
Para mim, e isto é uma opinião muito pessoal, tudo na vida com conta, peso e medida nunca fez mal a ninguém - nem 8 nem 80. Porque já lá dizem os antigos "tudo o que é demais, é moléstia".

E vocês - qual é a vossa opinião? Digam tudo nos comentários.

Kisses da vossa Geek

domingo, 15 de janeiro de 2017



Historiquices de Fevereiro

Rainha Vitória

Em Fevereiro, a figura histórica que vai ser focada neste projeto será a Rainha Vitória de Inglaterra.

Monarca muito reconhecida a nível mundial - segundo um inquérito feito a nível internacional em termos de monarcas ingleses, aparece o nome dela junto ao do Henrique VIII, como os mais conhecidos.
Ela deu origem a uma era batizada com o seu nome, símbolo de tradições de família, de inovações em Inglaterra como a Revolução Industrial, apoio ao mais carenciados e religiosidade a par de opressão de tudo quanto não fosse bom, saudável, familiar. É dela a famosa expressão com que brindava as filhas, antes de casarem e de cumprirem os deveres maritais para "fecharem os olhos e pensarem na Inglaterra".
Mas Vitória não era assim na sua vida privada, pessoal. Ela era apaixonadíssima pelo seu marido Alberto, o qual, quando morreu, a deixou num vazio emocional e físico que muito a influenciou nestas suas atitudes.
Em termos de governo, ela tinha um apoio providencial dos seus vários ministros, sendo o Lord Melbourne o mais destacado a par com Benjamim Disraeli, que lhe davam conselhos e a guiavam pelo mar revolto da diplomacia de estado, visto que foi criada praticamente em reclusão por uma mãe autoritária e ambiciosa e o seu amante igualmente ambicioso e, por vezes violento, o que não a preparou em nada para o seu futuro papel de Rainha.

Seguem-se então algumas sugestões de leitura e de visionamento para esta figura bem conhecida e contraditória.

Livros







FILMES



Trailer aqui


Séries




Documentário

Deixo apenas o link para o mais recente, mas não está legendado.



Kisses da vossa Geek

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Opinião

Sempre Vivemos no Castelo



" somos tão felizes"

Aclamado como um dos livros de referência no que ao terror diz respeito, tenho que concordar com essa aceção, pois entrei para esta leitura com muitas expectativas e todas foram superadas. Acrescento que além do terror e suspense é também um drama vivido em vários níveis.

A historia é narrada pela perspetiva de Mary Katherine Blackwood, irmã de Constance, que foi acusada de matar toda a família, mas foi ilibada das acusações. Elas vivem na Mansão Blackwood, num sitio afastado da aldeia, com o seu tio Julian, outro sobrevivente da tragédia.  A narrativa divide-se entre as irmãs e o seu tio no tempo presente e com algumas reminiscências do passado, mais concretamente ao dia da tragédia e fala um pouco dos elementos da família, entretanto mortos.

Esta é uma narrativa sufocante, por se passar  num único espaço físico (a mansão) e que nos dá a total sensação de clausura, necessária para entender estas irmãs tão marcadas de diversas maneiras.
A escrita da autora mantém-nos sempre na expectativa  - a tensão e o mistério, a   principio ténues, começam a ficar mais acentuados á medida que o livro avança e que  percebemos o quanto estas irmãs estão destruídas, amedrontadas, perdidas e fechadas em si mesmas.
Acabei as últimas páginas em frenesim, porque queria perceber tudo o que se passava naquela casa. De certo modo, esta narrativa fez-me lembrar Manderley, a famosa mansão que Daphne du Maurier criou como símbolo de tudo o que Rebecca representava, assim a mansão Blackwood, decrépita e isolada é um espelho dos seus ocupantes.
Fiquei absolutamente maravilhada com este livro tão pequeno mas tão poderoso, cuja autora conseguiu o condão de me transportar para o meio da história.

Kisses da vossa Geek

domingo, 8 de janeiro de 2017



Vamos Geekar com séries de Época #3


Versailles

Apesar de ir ter uma segunda temporada a estrear em breve, resolvi fazer um destaque desta série, pois o que vi da primeira temporada foi fenomenal!
Louis XIV, o Rei Sol tem uma história que se presta a séries e filmes infindáveis, dos quais já vi alguns - uns bem feitos, outros nem por isso. Mas sendo eu uma fã aguerrida deste monarca, pois considero-o um dos mais inteligentes da História, tive que ver mais esta adaptação televisiva da sua história, tendo como ponto de partida a deslocação da sua corte para Versailles. Para quem não sabe, o que havia lá era um mero pavilhão de caça de reis anteriores, nada propício a ter uma corte com centenas de cortesãos e milhares de servidores. Louis deslocou-se para ali para fugir ao sufoco de Paris, com os seus cheiros pestilentos no Verão e pestes dizimadoras constantes.
Também foi uma forma de poder manipular os nobres, que se achavam com mais poder que o seu rei, e roubavam-no a torto e a direito, faziam dos seus domínios verdadeiros estados feudais como se não pertencessem a França e por conseguinte, ao seu soberano.

Em termos de série, ela foi inteiramente gravada no local - Versailles - sem recorrer a gravações em estúdio, o que muito contribui para a beleza cénica. É tudo original, os atores andam e tocam onde Louis XIV andou e tocou. E isso traz uma carga de autenticidade incomparável a outras adaptações.
Os diálogos e o guião estão muito bem escritos, há cargas emocionais tremendas, jogos de palavras, a fineza da corte em todo o seu esplendor está aqui bem espelhado.
É retratada a relação de Louis com o seu irmão Philippe, 3º na linha de sucessão e uma personagem descrita como o "David Bowie do séc. XVII".

Ele era bissexual, mas mais provavelmente gay e abertamente - toda a gente sabia e era de grande prestígio ser seu amante. O Cavaleiro de Lorena foi o seu amante de mais longa duração e fama. Philippe de Orleães era espampanante, vestia-se frequentemente de mulher, era amigo de copos e orgias. E é o maior apoiante do irmão, embora lhe critique algumas atitudes.


A série retrata também Louis e as suas  muitas mulheres - começando pela sua rainha D. Teresa, mais a sua cunhada Henriqueta de Inglaterra, Louise de La Valiére, a sua amante mais antiga e Madame de Montespan, a nova conquista e que lugar elas ocupam na sua vida. Gostei de ver as interações e as relações de poder e de força que elas exercem sem pudores.


É uma série com uma componente sexual, com algumas cenas mais ousadas, mas que não estão ali apenas para "ganhar" audiências: elas retratam a vida exata da corte naquela época e são relevantes por isso mas sem pôr demasiado ênfase. E o sexo faz parte da vida, não é assim?
Uma das críticas persistentes da série é que, sendo uma história francesa, a série está rodada em inglês. O estúdio assim o determinou, para que pudesse ser vendida a mais países. Tenho que dizer que não influi em nada na qualidade da história aqui contada nem das interpretações de George Blagden (que, por curiosidade, sabe falar francês fluentemente) e de Alexander Vlahos, Louis e Philippe respetivamente.
Em suma, uma série de grande qualidade.

Kisses da vossa Geek