quarta-feira, 19 de abril de 2017

Reflexões

A arte da escrita


Não acredito realmente em coincidências. Acho que há situações que se nos apresentam, em determinada altura da nossa vida e que são indicadoras de algo, que podemos conseguir interpretar ou não, mas elas estão lá.

Isto a propósito de duas leituras recentes: Paris é uma Festa e As Horas Distantes. Poderão dizer - são dispares. Sim, são! Mas têm uma vertente muito marcada: a criatividade, nomeadamente a escrita, a produção de textos. E é aí que batem as coincidências todas.



Em Paris è Uma Festa conta-se, em jeito de memória, o ambiente artístico daquele período e naquela cidade em específico. Aborda-se o processo criativo, as tricas entre escritores, amizades e inimizades que se faziam com o levantar de um copo de vinho - sim, o vinho era essencial no processo todo.

Nas Horas Distantes, o  foco vai para o segredo da inspiração - de onde vem, como é utilizada e também das consequências de uma inspiração mal usada. Também do processo de escrita e como retirar mais produtividade, como ser prolífico.

A visão do escritor é escrutinada sob uma multitude de paradigmas que podem estar todos certos...ou não. Certo, é só isto que li n´As Horas Distantes: se ficar à espera da história certa, para a passar para o papel, vai-se ter é um monte de páginas vazias. O exercício da escrita é isso mesmo: exercício. A ser feito todos os dias de forma regular, e, embora possa sofrer muita edição e corte, mas sim - todos os dias, sem exceção. Já vi várias entrevistas, a autores conceituados e a resposta deles é sempre a mesma: todos os dias escrevem, não importando se se sentem mais inspirados ou não. E não há duas pessoas que, assistindo ao mesmo evento,  o descrevam da mesma maneira.

Por isto tudo e por muito mais, vi ressurgir em mim a vontade antiga de escrever um livro. De quê ainda não sei, mas, mais uma vez - pois já tentei anteriormente - dar uma chance ao que me vai aqui dentro, ao que me apetece pôr para fora, independentemente se os outros gostam ou não. Porque a escrita é algo muito pessoal, em primeiro lugar. Quantas vezes ficamos frustrados com o rumo de um livro, dizemos que faríamos de outra maneira, armamo-nos em escritores e não fazemos uma reflexão simples: o autor escolheu este rumo porque quis, porque lhe fez sentido - quem somos nós para criticar isso?


Kisses da vossa Geek




domingo, 16 de abril de 2017

Projecto Historiquices  Maio

Catarina, a Grande

E já chegámos a Maio. Com ele, vem outra figura histórica, outra grande mulher. Grande Rainha.

Catarina nasceu em 1729, num dos muitos principados germânicos que constituíam o que hoje é designado por Alemanha. Nasceu com o nome de Sofia Frederica Augusta de Anhalt-Zerbst-Dornburg e, com 10 anos de idade, foi para  Rússia viver com a Imperatriz Isabel, para que fosse educada na corte, porque mais tarde iria casar com o seu sobrinho Pedro, Grão-Duque. Foi na sua conversão á Igreja Ortodoxa russa que adotou o nome de Catarina.
Este foi o passo mais importante para a sua entrada na corte russa. Ela fez tudo para ser aceite: aprendeu a língua, a cultura e sobretudo como evitar entrar em confronto com a Imperatriz, que era mulher dada a destemperos de comportamento.
Catarina teve um casamento infeliz, com um marido que possivelmente hoje seria diagnosticado de bipolar, o que tornou a sua vida, enquanto Grã-Duquesa, miserável. 
Após a morte de Isabel e a subida de Pedro e Catarina  ao trono, as relações entre eles ficaram piores, com ela em risco de ser mandada para um convento, por vontade do seu marido, para ele poder desposar a amante. Mas Catarina não havia de ficar quieta, enquanto o reino e a vida porque ela lutou tantos anos e com tanta inteligência, ficasse nas mãos doentes do marido. 
O que se sabe em seguida é que Pedro morreu ás mãos do irmão de Gregory Orlov, amante de Catarina e que o poder dela foi legitimado enquanto imperatriz.
O seu reinado é conhecido pela sua inclinação claramente Iluminista. Ela escreveu manuais de educação para crianças, inspiradas nas ideias de autores franceses, correspondeu-se com Voltaire durante décadas e ele chegou a estar um tempo na sua corte. Em tudo, ela procurou consolidar e aumentar o prestígio da Rússia, apenas falhando num assunto que ela nunca quis pegar: os servos.
Mas o aspeto sempre mais focado, e penso que por ser mulher, será a sua insaciedade sexual. Muitas são as lendas que giram em torno disso, sendo a do cavalo a mais engraçada e emblemática. Nunca uma mulher que alguma vez deteve o poder, passou por ele imaculada deste tipo de rumores e piadas sexistas.
Certo é que ela teve numerosos amantes, todos devidamente documentados pelas generosas doações e pensões. Mas algumas das histórias são perfeitamente ridículas, e, servem apenas para menosprezar o trabalho incansável dela.

Tinha defeitos? Sim, afinal era só humana. Mas no espaço de tempo que lhe foi concedido, ela realizou mais do que uma horda inteira de Romanovs, antes e depois dela.

Livros












Documentário


Filme


Kisses da vossa Geek

quarta-feira, 12 de abril de 2017


Os 10 ódios de estimação que tenho nos livros

Inspirada pelo post da Raquel, do canal do Youtube e blog So Happy with Books, resolvi também fazer o meu top de coisas que não gosto nos livros.

1 - Capítulos longos - ok, esta parece fútil, mas gosto mais de capítulos curtos porque me impelem mais a ler.

2 - Triângulos amorosos metidos "à força" - só para introduzir algum tipo de interesse na história, ou porque chegou a um impasse, mas sem fazer avançar o enredo - dispenso! Tal como cenas de sexo com o mesmo intuito - "vamos alegrar isto, que está morto": morte certa para mim.


3 - O "Calimero" - aquela personagem coitadinha, que se apresenta sempre a choramingar com a vida e que a mínima coisa pôe-na de rastos, mas que nunca soluciona nada e está sempre á espera que, mágicamente, e sem mexer um dedo, que as coisas se componham - dá-me urticária.

4 - Heróis ou heroínas á prova de tudo - parecem arraçados de Super-Homem: a coisa pior que lhes possa acontecer, nunca lhes quebra o otimismo, quase a roçar a esquizofrenia. Irreal, para mim. E muito irritante de ler.


5 - Livros onde os diálogos estão confusos - ou seja, aqueles que tenho que ler por 2 e 3 vezes para perceber quem diz o quê a quem. Pior ainda se forem com personagens com nomes iguais ou parecidos.

6 - Pais ausentes - sério! Temos adolescentes e....onde andam os pais deles, que nunca aparecem? Parece que foram criados com os lobos. Também irreal, pelo menos para mim e através da minha lente "maternal".

7 - A inevitável história de amor entre protagonistas - muitas vezes é só porque sim - mais um engenho para entreter o leitor, numa história "morna".

8 - Letras e margens pequenas - é como se fosse um muro de palavras, a virem na minha direção: torna-se fastidioso de ler.

9 - O "enche chouriços" - o autor anda à roda e à roda para encher páginas - será que recebe quantas mais escrever? - para, no final, o mesmo podia ter sido dito com metade. Fico com a sensação que andaram a desperdiçar o meu tempo.

10 - O cliché do patinho feio - o antissocial, feio, gordo, borbulhento e mais que seja, que é gozado pelos populares do sítio e que, de repente - lo and behold: tem uma transformação a 180º! Toda a gente se quer dar com ele, sair com ele, namorar com ele, estar em redor dele. Tão mau que me faz revirar os olhos.


 E vocês - quais são os vossos ódios de estimação? Contem-me tudo eu vou adorar ler!

Kisses da vossa Geek

domingo, 9 de abril de 2017

Video novo no canal

Mais um Casual Geek onde falo entre outras coisas de leituras que duram mis tempo que o expectável... mas porque gostamos.



Kisses da vossa Geek

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Opinião


O Livreiro de Paris

Antes de começar, devo dizer que este livro é um dos mais singulares que já li na minha vida. Não é de fantasia, para ter o dragão ou heroína de serviço, e no entanto é tão diferente que me levou mais de uma semana para ler as suas 300 e poucas páginas. Vamos descobrir porquê?

A história toda começa e termina em Jean Perdu, um livreiro, que tem um barco-livraria atracado no rio Sena há 20 anos. Ele não é um livreiro comum - apenas vende os livros que condizem com os clientes que entram no seu Lulu (é o barco). Aliás, é ambição dele fazer uma espécie de farmacopeia literária em que sintomas como mal de amor, ansiedade, demasiado realismo são "curados" através da leitura de determinadas obras.

"Leia isto. Três páginas todas as manhãs, deitado, antes de tomar o pequeno-almoço. Deve ser a primeira coisa que entra dentro de si. Depois de algumas semanas já não se vai sentir tão ferido."

Mas se Jean Perdu é muito bom a ler os outros e a resolver-lhes as maleitas, o mesmo não se pode dizer acerca de conseguir dar um rumo á sua vida.

No dia em que uma nova vizinha vai morar para o prédio de apartamentos nº 27 da Rue Montagnard, há uma revolução que se vai começar a germinar e que irá culminar com Jean - e todos os intervenientes - a se conhecerem melhor a si mesmos. Vai ser uma viagem ao interior de cada um. Vai haver perguntas, que vão sendo respondidas à medida que outras perguntas vão surgindo.

Não quero revelar muito mais do enredo em si, pois eu sabia muito pouco ao começar a leitura e penso que, para se apreciar o livro na sua plenitude, é necessário passar pelas suas variadas etapas, sem stresses, sem pressa e a saborear.
Como disse, levei mais de uma semana a completar a sua leitura, não porque me estivesse a desagradar, mas pela sua singularidade  e pelo facto de nos trazer sons, cheiros e imagens tão vivas que parece que estamos lá. Viajei para França através das páginas deste livro, senti o Mistral na cara, cheirei a lavanda nos campos, a vida buliçosa de Paris....e por isso, não me queria despedir do livro.

Esta narrativa é também uma ode aos livros e á leitura - basta que a personagem principal é um livreiro e leitor convicto. São imensas as passagens onde ele refere livros e personagens.

"Nº 14: Clarisse Menepeche. Que alma mais terna num corpo tão pesado! Adorava a guerreira Brienne das Crónicas de Gelo e Fogo"

A escrita é linda, poética, evocativa - conseguimos ver tudo com os nossos próprios olhos, o que me surpreendeu imenso.
Esta foi uma obra que degustei devagar, que li e meditei sobre ela. É certo que tem uma premissa invulgar, mas ao mesmo tempo tão positiva e indutora de calma e tranquilidade, que tantas vezes é necessária na nossa vida.
Deixo-vos com um último excerto.

" Ler. Uma viagem sem fim. Uma longa, no fundo, eterna viagem, no decorrer da qual uma pessoa se vai tornando mais benévola, mais amante e amável."

Kisses da vossa Geek

domingo, 2 de abril de 2017

Wrap Up Historiquices Março

As Irmãs Brontë

Vídeo onde explico o que li e vi para ficar a conhecer melhor estas grandes figuras da literatura mundial.


Kisses da vossa Geek

quarta-feira, 29 de março de 2017

Dois por Um

Gabrielle Chanel

Livro Mademoiselle Chanel de C. W. Gortner

e

Filme "Coco Avant Chanel"

Decidi juntar estas duas vertentes da vida de Gabrielle Chanel, não porque o filme tenha sido feito a partir do livro ou vice-versa; apenas que o filme, que vi há anos atrás, e com certeza alguns anos antes de o livro ser escrito, retrata fielmente a vida e obra de uma das mulheres mais influentes do século XX.

Para quem desconhece por completo as origens desta grande mulher, pode-se dizer que ele teve uma infância conturbada, onde a sua mãe, solteira e com 5 filhos para criar, era deixada sozinha pelo pai por longos períodos de tempo, pois o ele era vendedor e andava de cidade em cidade.
A mãe morreu quando Gabrielle tinha 12 anos e o pai não se quis ocupar de nenhum dos filhos: as meninas foram para o convento de Aubazine, enquanto que os rapazes ficaram a trabalhar numa quinta.
Possivelmente, esta sensação de abandono e pobreza extrema fizeram com que Gabrielle inventasse uma vida para ela, em que não estaria patente o desprezo a que ela e a sua irmã Júlia, ambas internadas nas freiras, foram votadas.

"A minha vida não me agradava, por isso resolvi criá-la"

Esta é a frase de abertura de um livro extraordinário sobre esta mulher avant gard, esta mulher que nasceu antes do tempo em que poderiam entender a sua mente e as suas atitudes.
Em seguida a sair de Aubazine, Gabrielle e a sua irmã ainda ficam mais 2 anos em regime de pensionistas, num outro mosteiro para meninas, em Moulins, perto de alguns familiares da parte do seu pai. Após esses 2 anos, e já uma reputada costureira e bordadeira, ela e a sua tia mais nova Adrienne vão trabalhar para uma maison, especializada em enxovais de noivas. Mas o pagamento é tão pouco que Gabrielle começa a cantar no café La Rotonde, e a canção que mais a celebrizou foi a que lhe deu o seu diminutivo  - Coco - por causa da canção "Qui qu´a vu Coco dans l´Trocadéro". O café  e as suas aparições foram onde ela conseguiu seduzir um jovem socialite chamado Étienne Balsan, que regressava da guerra para o château da família, em Compiégne.
Ela tornou-se sua amante e ele deu-lhe acesso á alta roda francesa e deu-lhe ainda a conhecer o grande amor da sua vida: Arthur Capel ou Boy para os amigos, um milionário inglês que foi o primeiro a apostar no seu primeiro negócio - uma loja de chapéus.
Gabrielle amava perdidamente este homem e, apesar da grande mágoa de ele se casar com uma daquelas senhoras "com 3 nomes" (designando as senhoras da aristocracia), eles mantiveram uma relação intermitente, que durou até à morte dele, num acidente de carro.
Por esta altura, Coco já era bastante conhecida em Paris e das mais famosas revistas de moda francesas, portanto ela decidiu expandir o seu negócio para a roupa, primeiro desportiva e de praia.
A nível pessoal, nunca foi casada nem nunca tal entrou nos seus planos, mais uma vez, pelo trauma de não conseguir confiar em ninguém a 100%, sem ser nela própria.
Como última curiosidade, ela foi a única estilista francesa que fechou   o seu atelier, ou seja não produzia coleções, durante a ocupação alemã de França, o que lhe valeu algumas suspeitas por parte dos alemães do Reich.

A nível do livro em si, já não é a primeira experiência com este autor e considero-o mesmo um dos melhores em romance histórico, atualmente. A escrita, o estilo de narrativa em primeira pessoa e o ritmo que ele imprimiu, contribuíram para uma leitura viciante e frenética, pois há muitos aspetos da vida desta grande senhora que me eram completamente desconhecidos e que, aqui, ganharam vida e sentimento.
Tem descrições lindas de Paris e das suas festas nos loucos anos 20, da cena intelectual e artística - ela era amiga de Picasso, Sergei Diaghilev, Jean Cocteau, entre outros. Fala também da sua incursão nas drogas, sempre bastante controlada e dos seus amantes - alguns.
O tom da vida desta mulher, se quisesse ser descrito em uma única palavra será moderação. Menos no trabalho, que era o seu centro de tudo. Mas, em tudo o resto, ela sabia ser moderada e ponderada, fria e calculista. Nunca deu um passo maior que a perna e isso fez com que contruísse um império, ainda hoje reconhecível.

O filme retrata exatamente o que li. Foram muitas as vezes que li o livro e revia na minha mente cenas especificas do filme. A fotografia está linda, a atuação da Audrey Tautou está no ponto e dá vontade de voltar àqueles anos loucos e viver um pouco aquilo que ela viveu, para perceber em que matéria ela foi moldada.
Em termos de biopic, é um dos melhores que já vi. Não sai do tom, não glorifica, mas também não arrasa com o seu sujeito principal, portanto recomendo vivamente para quem queira ir a Paris, ir ao centro de um turbilhão de criatividade e perceber como funciona (ainda) o mundo da moda. Porque, aí, nada mudou desde essa altura...

Kisses da vossa Geek

domingo, 26 de março de 2017

Projeto Historiquices - Abril

Lucrécia Bórgia

Este mês pegamos numa figura que tem tanto de emblemática, como de sinónimo de perfídia feminina.

Lucrécia nasceu da relação ilícita de seu pai, na altura cardeal, Rodrigo Bórgia, e da sua amante de longa data Vanozza Catanei, embora tivesse várias em simultâneo.
Rodrigo Bórgia tornou-se Papa, adotando o nome de Alexandre VI e, desde aí, procurou para sua filha - e, consequentemente, para si - um casamento e uma aliança frutíferas. Ela foi casada aos 13 anos de idade com Giovanni Sforza, uma das grandes famílias de Itália, mas devido á sua tenra idade, o casamento não foi consumado.
Quando a aliança com os Sforza deixou de ter sentido para Alexandre VI, ele ordenou ao seu filho Cesare, que foi para o sacerdócio obrigado, pois ele era mais soldado que padre, que livrasse a sua irmã desse "inconveniente", pois ele já tinha outro marido em vista para ela.
Como Giovani Sforza e Afonso Biscegli, o segundo marido de Lucrécia tiveram umas mortes prematuras e suspeitas, toda a Roma falava de envenenamento, incesto fraterno e paterno, orgias e deboche. O nome de Lucrécia sempre ficou associado a tudo isso.

A verdade: sim, o irmão Cesare matou-os a mando de seu pai, tudo para o engrandecimento da família. Lucrécia sempre foi apenas e só, um peão - bem alimentado, vestido e calçado, mas nada mais que isso, que eles dispunham a seu belo prazer, como lhes era mais vantajoso. Não me parece que nada do que lhe era imputado de mais escandaloso fosse verdade.
Lucrécia revelou ser uma dama da Renascença de pleno direito, pois com o seu terceiro casamento, foi reconhecida como culta, educada, gentil, uma benemérita reconhecida, mãe incansável para os seus filhos e inclusivamente teve a regência do ducado de Ferrara, durante as ausências de seu marido Afonso D´Este. 
Lucrécia fez do ducado de Ferrara um sítio de congregação de escritores, pintores, poetas, um sitio onde a cultura renascentista fervilhava em todo o seu esplendor.
Morreu após dar á luz o seu oitavo filho, mas deixou para trás um legado de escândalos e maledicência que perdurou estes séculos todos.

Será esta a figura grandiosa sobre a qual nos vamos debruçar no mês de Abril, e, como é costume, segue-se um lista de sugestões para quem quiser acompanhar-me.

Livros














Filmes

Bórgia - um filme espanhol que retrata toda a família

Séries

Os Bórgias - com o Jeremy Irons

Borgia Fé e Medo - uma série de 2011, sem o aparato da anterior

Kisses da vossa Geek



quarta-feira, 22 de março de 2017

Opinião

A Linguagem Secreta das Flores

Advertência:
Se pensam que este é um livro light e fofinho tal como o título e capa sugerem - desenganem-se. Este é um livro de emoções fortes e de sentimentos profundos.

Victoria Jones teve uma infância que ninguém deseja - penso até que seja o terror de qualquer pessoa: ela foi abandonada em bebé e levou toda a sua vida, até aos 18 anos de idade, a ser colocada em casas de acolhimento e em possíveis pais adoptivos, que nunca se traduziram em alguém que lhe quisesse mesmo dar um lar e uma família.
Com 18 anos, o estado americano declina mais responsabilidades. É altura de as crianças ditas "no sistema" se fazerem à vida e tentarem sobreviver, com o pouco que lhes foi incutido nestes anos todos de rejeição, em famílias absolutamente desestruturadas. 
Victoria é uma dessas adolescentes que, não tendo praticamente nenhum ensino formal, quanto mais uma profissão, são postas em halfway-houses até que consigam se sustentar por si próprias. Ela adora flores, sempre foram a sua paixão, mas ela aprendeu mais a sério o significado escondido de cada flor com a sua mãe de acolhimento mais significativa, Elizabeth, a que esteve quase a adoptá-la.
Victoria não gosta de comunicar com palavras, por isso aprender a linguagem secreta das flores, uma arte da época vitoriana, foi o modo de se começar a relacionar com o mundo exterior e de passar mensagens ás outras pessoas, sem efectivamente dizer nada. Pois ela não tem vontade de ter qualquer contacto, intimo ou de amizade, com quem quer que seja.

Renata é a dona de uma florista que decide contratar Victoria pela extrema habilidade que ela denota com as flores e com a sensibilidade que ela mostra, ao conseguir "emparelhar" clientes e arranjos florais. Ela passa a ter clientes só mesmo dela, que a procuram para que possa traduzir num ramo de flores, as mensagens ou os anseios que não conseguem expressar. Ela tem sucesso e gosta do que faz, pois parece mesmo talhado para ela. Mas uma série de coincidências e de encontros inesperados vão dar uma reviravolta completa na sua vida e ela vai, mais do que nunca, necessitar da calma que encontra nas suas adoradas flores, que nunca lhe mentiram nem nunca lhe exigiram mais do que ela estaria disposta a dar.

Este será o ponto de partida para uma história que tem tanto de inocente como de profundamente emocional. Eu, que não sou de chorar com livros, chorei abertamente com este, pois sem ser lamechas - que não é - conta a história de alguém tão traumatizado com a solidão e rejeição, que pensa que ela própria é indigna de amor e de proximidade, que irá sempre fazer toda a gente infeliz. Também emocionei-me pelo facto de ela apenas se conseguir relacionar com os outros a coberto das flores, e não por ela própria - não imagino como será estar fechada em si mesma de tal modo que só encontra esta maneira de se expressar.

Confesso que peguei neste livro com receios de ser demasiado "romance de cordel", mas fiquei extasiada com a qualidade da escrita e do enredo, que se passa em duas épocas distintas, mas bem demarcadas, com capítulos separados e curtos.

E vocês, já leram? Têm curiosidade? Contem-me tudo.

Kisses da vossa Geek

domingo, 19 de março de 2017

Vamos falar de ....

Audiobooks

Recentemente comecei a ouvir audiobooks.

Um deles já aqui tem opinião - Um Homem Chamado Öve - mas quero deixar aqui a opinião dos 2 mais recentes - na verdade acabei-os esta semana. Um deles ainda não foi traduzido e o outro foi, mas com sucesso bastante modesto.

Behind Closed Doors

Um thriller psicológico muito bem contruído, em redor da noção bem portuguesa de "entre marido e mulher, ninguém mete a colher". Grace tem um casamento feliz, uma casa fantástica e um marido perfeito. Mas será tanto assim? O que se passa entre 4 paredes?
O bom deste livro é ir sem saber grande coisa, pois o enredo está escrito de tal modo que vão-nos sendo deixadas pistas, mas enquanto não se tiver uma visão mais geral de toda a situação, não nos apercebemos que elas lá estão.
A tensão, o medo e a estupefação fizeram com que eu progredisse no livro, sempre em busca de explicações. Porque há situações que nunca pensamos que podem acontecer, mas elas foram descritas neste livro de modo verosímil,  e, o que é mais assustador - podem bem ser reais.
A narradora faz todas as vozes e tem uma entoação perfeitamente british, mas com ritmo, cadência e sentimento - fez-me sentir tudo o que se passava com a Grace.
O final, embora previsível, teve um desfecho inesperado, e, por isso congratulo a autora e lanço um apelo ás editoras portuguesas: o que é que estão á espera de editarem cá esta autora, que tem pelo menos mais um livro escrito?


Indecoroso (Unmentionable)

O subtítulo deste livro diz tudo: o guia para a dama vitoriana sobre sexo, casamento e conduta.
Este é um livro de não-ficção, sobre todos os aspetos que envolvem uma dama vitoriana, desde a sua roupa interior sem entrepernas - é o começo do livro - até à histeria, doença muito em voga entre as damas vitorianas de riqueza.
Este é o tipo de não-ficção que gosto - á parte de biografias - em que são focados aspetos específicos ao estilo "época vitoriana para totós".
O livro está estruturado como uma viagem no tempo. A autora começa por dizer que nós (leitoras) romantizamos demasiado a época, muito por culpa de filmes e livros, que não nos mostram toda a horrível verdade - que, quando vemos Orgulho e Preconceito, não vemos as ruas de Meryton como elas deveriam ser na altura: com excrementos de cavalo até aos tornozelos de quem se aventurasse a andar por ali.
Portanto, ela propõe uma viagem no tempo, e, em tom professoral e meio sarcástico, vai-nos guiando pelos diversos aspetos que compunham o dia-a-dia de uma mulher, em qualquer estrato social, na época vitoriana. Ela vai-nos dar conta de pormenores que nem aparecem em correspondência da época, por serem tão intrínsecos e normais, tal como nós hoje não nos referimos ao facto de tomarmos banho todos os dias, porque isso será um dado adquirido.
A narradora pôs-me a rir em voz alta por diversas vezes, tal o seu tom entre o jocoso e o condoído, pela nossa ineptitão ao navegar no século XIX.

E vocês - já leram? Têm curiosidade?

Kisses da vossa Geek

quarta-feira, 15 de março de 2017

Vamos Geekar com Séries #5

Séries passadas em Grandes Armazéns


Meus geeks, qual a mulher que não gosta de uma boa ida ás compras? Até a mais distraída ou menos consumista gosta. E o que pode de haver melhor do que uma department store, ou seja, um enorme espaço comercial com stands de várias marcas, tudo num ambiente (quase) familiar?


Estas séries começaram sensivelmente ao mesmo tempo e embora um delas tenha sido cancelada, porque perdeu audiências, merece uma menção, pois para mim, apesar de focarem o mesmo mundo, isso era feito em épocas distintas.


THE PARADISE


Estreada em Setembro de 2012, esta é uma produção BBC, baseada no livro de Émile Zola Au Bonheur des Dames e foca-se nos primórdios deste tipo de comércio. Começa da época vitoriana, e embora não sendo apontada uma data - pois esta é uma história ficcionada - diria que seria entre 1870-1880.
Tudo começa com a chegada de Denise a Newcastle, vinda da província, como tantas raparigas vinham, em busca de melhor vida, para assumir um lugar de vendedora na primeira loja deste género, no país.
Foi um conceito inovador posto em prática pelo seu patrão Moray, com a ajuda financeira do seu futuro sogro, grande bancário da zona.  Moray está noivo de Katherine Glendenning, menina rica, mimada e muito, mas muito ciumenta.
Denise personifica a nova mulher que está a nascer: trabalhadora com direitos, independente, sem medo de ficar para trás sem casar. Aliás, tal como as outras funcionárias da loja, todas são solteiras, embora umas mais românticas, como a  Pauline ou outras com um passado tortuoso como Clara, que lhe faz a vida negra.
É claro que Moray e Denise se apaixonam e vai haver um tanto de confusões, traições, enganos e também vitórias. Tem interpretações fantásticas e aquela "qualidade BBC" que tanto aprecio. Os cenários são fantásticos, os diálogos bem construídos.
A série, apesar de ter apenas 2 temporadas, acaba sem pontas soltas, talvez porque já soubessem que não iria haver uma 3a temporada.


MR. SELFRIDGE


Esta série, que começou em Janeiro de 2013 foi a razão apontada para que a série The Paradise tivesse sido cancelada.
Retrata a história verdadeira de uma pessoa real - Henry Gordon Selfridge, magnata americano, que estabeleceu em Londres, no ano de 1909 o famoso Selfridge´s, primeira loja neste conceito de department store. O Selfridge´s é conhecido por ter mercadoria de 1ª qualidade, as melhores marcas de gama alta e os produtos mais exóticos - "Bring the World to Selfridge´s" tal como diz na série - desde a sua fundação que é assim.
Harry nasceu no Wisconsin, com uma vida difícil, que mais tarde conseguiu transformar em grandiosidade, riqueza e alguma excentricidade. Ele é o empreendedor americano por excelência: arrogante, gosta de correr riscos, eternamente optimista.
Esta série foi baseada numa biografia, e na série apenas é retratado o período a partir do qual ele funda a loja.
Todas as desconfianças da sociedade inglesa para com estrangeiros, e, mais concretamente - estrangeiros endinheirados e de sucesso - todo o ostracismo  a que ele, de inicio, é sujeito, as rasteiras que lhe pregam, tudo isto é retratado com veracidade, integridade, e de uma forma muito vívida e cheia de ritmo e acção. Não há momentos mortos ao pé de Harry Selfridge, porque ele é o homem dos sete-ofícios em que está sempre a pensar na próxima inovação, para estar sempre um passo à frente da sua concorrência.
Jeremy Piven tem aqui o papel da sua vida, junto com um cast tanto inglês como americano de excelência, onde tudo está como deve estar - cenários, diálogo, atitudes, guarda-roupa e caracterização deslumbrantes que retratam, à medida que os anos passam na série - começamos em pouco mais que 1900 e terminamos já nos anos 20 - a evolução da moda e costumes.
A minha personagem preferida além do Henry será a Lady Mae, interpretada por Katherine Kelly, uma actriz inglesa que fazia maioritariamente novelas (Eastenders) e que, não sabendo se é personagem fictícia ou real, me parece o protótipo da "nova mulher": independente, inteligente, influente, que segue os seus próprios ditames e não se verga a ninguém. Ela gosta de conforto e luxo, mas confrontada com uma situação de violência doméstica, não pactua com a situação e liberta-se.
Também são focados  os traumas de guerra, a I Guerra Mundial em si, o vazio deixado pelos homens ao irem para a frente de batalha, as mulheres a terem que assegurar os trabalhos dantes feitos por homens, a volta dos homens e a sua reintegração na sociedade, a instrução das mulheres, o terem uma carreira....e muitos outros.


E vocês - já viram alguma? Têm curiosidade em ver? Digam-me tudo!


Kisses da vossa Geek

domingo, 12 de março de 2017

Filmes feitos a partir de peças de teatro


A propósito de Fences, lembrei-me de fazer uma listinha dos filmes que já vi e que foram adaptados de peças de teatro.


Não consigo fazer um top, pois não vi muitos e todos os que vi, gostei de igual forma. São sempre filmes intensos, de grande carga dramática e que, para quem gosta de filmes "mexidos" isto certamente é o completo oposto, pois vive muito das interpretações dos atores, normalmente belíssimas e pela pouca variedade de cenários onde decorre a ação.


GATA EM TELHADO DE ZINCO QUENTE ( CAT ON A HOT TIN ROOF)



Filme com argumento a partir a peça homónima de Tenessee Williams, é um filme que assenta na derrocada de um casamento e de todos os sentimentos maus que advêm de, ao mesmo tempo que se odeiam, eles adoram-se. Maggie, a "gata", interpretada magistralmente por Elizabeth Taylor e Brick, interpretado por "Blue Eyes" Paul Newman, são um casal à beira da ruptura, devido ao problema de alcoolismo de Brick e a briga estala quando eles vão de visita, para celebrarem o aniversário do pai de Brick, Big Daddy, que lhes exige um neto, tal como o irmão de Brick, Gooper, já lhe deu imensos. Então, as frustrações vão todas voar entre Maggie e Brick: diálogos bem construídos e dramas reais.




UM ELÉTRICO CHAMADO DESEJO ( A STREETCAR NAMED DESIRE)



Um filme a contar com Vivien Leigh como Blanche Dubois, mais uma southern belle, desta vez já passada dos anos, mas que ainda acredita que retém exatamente o mesmo charme. Ela vai passar uns tempos em casa da irmã, que está grávida, por causa de ter sido expulsa da sua cidade natal, por ter seduzido um rapaz de 17 anos, e, depara-se com um cunhado completamente bruto, interpretado por Marlon Brando. Mais uma vez, ela não resiste e tenta seduzir todos á sua volta, inclusive Stanley Kowalsky. Mais um grande filme e peça de teatro de Tenessee Williams. É famosa a frase que resume toda a vida e lema de Blanche Dubois "I have always depended on the kindness of strangers."



UM LEÃO NO INVERNO (LION IN WNTER)



Esta peça, por James Goldman tem 2 adaptações: uma de 1968, com Peter O´Toole como Henrique II de Inglaterra, Katharine Hepburn como Leonor de Aquitânia, sua esposa e rainha, Anthony Hopkins, uma absoluta estreia em cinema, como Ricardo Coração de Leão, filho mais velho e herdeiro e Timothy Dalton como Rei Phillippe de França.
Eu vi uma versão em telefilme de 2003, com Patrick Stewart como Henrique II, Glen Close como Leonor e Jonathan Rhys-Myers como Rei de França.


Numa altura em que Henrique tem a sua esposa Leonor de Aquitânia presa no castelo de Chignon, por já ter tentado usurpar o seu trono, enquanto ele foi em Cruzada á Terra Santa, e, pressentindo a sua morte iminente,  Henrique decide fazer uma reunião familiar em Inglaterra, com o propósito de nomear um herdeiro ao trono, entre os seus filhos. Mas como sempre, as faíscas verbais andam no ar e é delicioso vê-los numa cena em particular, onde eles vão receber o rei Francês, e, estando ao pé de vários dignitários, degladiam-se verbalmente, mas com um sorriso nos lábios, para que nada transpareça para ninguém. Magistral!


CASABLANCA


Um dos filmes que teve o mais baixo orçamento e que estreou modestamente. Foi ganhando fama ao longo dos anos. Narra uma história de II Guerra Mundial, em que Rick Blaine, um americano com um bar muito bem frequentado em Marrocos, numa altura em que a cidade se encontrava sob o controlo do governo de Vichy - portanto, francesa -  e do seu dilema em ajudar ou não o amor da sua vida, Ilsa Lund, a escapar com o seu marido, herói da resistência francesa, para Lisboa. Era uma rota bem conhecida da altura, pois como o porto e aeroporto de Lisboa continuaram mais ou menos neutrais, quem queria escapar dos países ocupados, tentava fazê-lo através do nosso país. Grandes interpretações de Humphrey Bogart e de Ingrid Bergman e uma lição de História muito bem dada, além de nos terem dados duas das mais famosas frases cinematográficas-" Play it again, Sam." e " We will always have Paris.


CLOSER


Um drama de 4 pessoas, interligadas entre si por laços que se vão contruindo e destruindo, ao sabor das paixões e dos ódios do momento. Uma americana chega em Londres e é atropelada. Um inglês vai em seu auxílio. Uma fotógrafa é confundida com uma outra pessoa e conhece o seu futuro marido. Um filme que, ao fim e ao cabo, retrata relações, complicada como só o amor e emoções podem ser. Tem como actores Julia Roberts, Jude Law, Nathalie Portman e Clive Owen.


E vocês - já viram algum? O que acham deste tipo de filmes?


Kisses da vossa Geek